Durante anos, Dragon Ball GT carregou um rótulo difícil de apagar: o de maior erro da franquia. Não era considerado canônico por boa parte dos fãs e ainda apostava em uma primeira fase que afastou boa parte do público. Por muito tempo, foi o exemplo mais fácil quando o assunto era “o que deu errado em Dragon Ball”.
Essa percepção, no entanto, começa a mudar quando colocamos Dragon Ball Daima na equação. E não porque GT tenha melhorado com o tempo, mas porque hoje é possível enxergar com mais clareza o tipo de erro que cada obra comete dentro da franquia.
Um dos pontos mais criticados de GT sempre foi a decisão de transformar Goku novamente em criança. Ainda assim, é importante observar que essa escolha não acontece de forma arbitrária dentro da narrativa. O evento é consequência direta de um erro no pedido feito por Pilaf, o que mantém a coerência interna da história e, mais do que isso, cumpre uma função bastante clara dentro do roteiro.
Ao final de Dragon Ball Z, Goku já se encontrava em um patamar de poder extremamente elevado, o que naturalmente dificultava a criação de novos desafios que fossem minimamente críveis. Ao reduzir o protagonista, GT encontra uma forma de reequilibrar esse cenário e permitir que a jornada volte a ter obstáculos mais palpáveis. Não se trata apenas de uma decisão estética ou nostálgica, mas de um recurso narrativo utilizado para sustentar a progressão da história.
Essa mesma lógica pode ser percebida em outros aspectos da obra. As lutas em GT, ainda que nem sempre consistentes, costumam carregar um peso dramático maior do que muitas vezes se reconhece. O confronto contra o Dragão de 3 Estrelas, por exemplo, apresenta um Goku já desgastado que precisa encontrar forças para finalizar o inimigo com o Punho do Dragão, em uma cena que funciona tanto visualmente quanto emocionalmente. Não é apenas a vitória que importa, mas o caminho até ela.
O mesmo pode ser dito da construção envolvendo Baby. A necessidade de recuperar o próprio poder, o crescimento do rabo, o descontrole do Oozaru e, por fim, a conquista do Super Saiyajin 4 formam um encadeamento de eventos que dá sentido à transformação. O SSJ4 não surge como um simples aumento de força, mas como resultado de um processo que envolve risco, perda de controle e superação.
Além disso, GT ainda apresenta acertos importantes fora do campo das batalhas. A trilha sonora se destaca por sua identidade, enquanto o desfecho da obra oferece uma despedida que dialoga diretamente com o legado construído ao longo dos anos. Mesmo com escolhas discutíveis — como o retorno de Freeza e Cell no inferno —, há um esforço constante de dar continuidade ao que havia sido estabelecido em Dragon Ball Z.
Nesse sentido, é possível afirmar que GT frequentemente falha na execução, mas dificilmente na concepção de suas ideias.
DAIMA E O PROBLEMA DO VAZIO
Em Dragon Ball Daima, por outro lado, o cenário se apresenta de maneira bastante diferente. A decisão de transformar todos os personagens em versões infantis, que à primeira vista poderia sugerir uma mudança estrutural na narrativa, acaba não desempenhando qualquer papel relevante no desenvolvimento da história.
Personagens importantes simplesmente deixam de ter participação significativa. Gohan sequer aparece, enquanto Trunks e Goten, reduzidos a bebês, não contribuem em nada para os acontecimentos. Até mesmo figuras como Mr. Satan e Kame, que poderiam oferecer algum tipo de contraponto ou exploração mais criativa, acabam sendo subutilizadas.
Diante disso, a própria existência dessa escolha passa a ser questionável, já que ela não altera a dinâmica da obra, não cria novos conflitos e tampouco interfere no percurso dos personagens de maneira significativa.
Essa falta de propósito se reflete diretamente na condução da narrativa. As lutas carecem de peso dramático, e momentos que deveriam carregar tensão são rapidamente esvaziados por decisões que quebram o ritmo. Após enfrentar inimigos como os Tamagami, por exemplo, Goku se vê envolvido em situações quase triviais, como competições leves que anulam qualquer senso de urgência previamente estabelecido.
O resultado é uma obra que avança sem deixar marcas consistentes, sem construir consequências reais para os acontecimentos que apresenta.
A QUESTÃO DAS TRANSFORMAÇÕES
A diferença entre as duas produções se torna ainda mais evidente quando analisamos a forma como cada uma constrói suas transformações.
Em Dragon Ball GT, o Super Saiyajin 4 é fruto de um processo narrativo bem definido. Goku precisa superar seus próprios limites, recuperar habilidades perdidas e lidar com o descontrole do Oozaru antes de alcançar uma nova forma. A presença de Pan nesse momento reforça o aspecto emocional da transformação, que deixa de ser apenas um aumento de poder para se tornar uma conquista construída ao longo da jornada.
Já em Dragon Ball Daima, a transformação ocorre de maneira abrupta e sem o mesmo tipo de construção. Ainda que se possa considerar a participação do Namekuseijin Neba, o próprio Goku indica que já vinha treinando e evoluindo anteriormente, o que esvazia o impacto daquele momento dentro da narrativa.
Sem um obstáculo claro a ser superado naquele ponto específico da história, a transformação perde sua função dramática e deixa de representar uma virada significativa. Em vez de marcar uma evolução, ela apenas acontece, sem alterar de forma relevante o rumo dos acontecimentos.
UM TOM QUE JÁ FICOU PARA TRÁS
A tentativa de resgatar o espírito aventuresco e o humor do Dragon Ball original, associada ao trabalho de Akira Toriyama, também enfrenta limitações dentro do contexto atual da franquia.
Com Dragon Ball Z, a série consolidou uma identidade muito mais voltada para a ação, estabelecendo um padrão que se tornou referência para o público. Embora o uso de humor e de momentos mais leves continue sendo válido, a ausência de conflitos mais densos e de ameaças reais acaba comprometendo o envolvimento com a narrativa.
Quando a leveza deixa de ser um elemento complementar e passa a definir toda a estrutura da obra, o resultado tende a ser uma história que carece de impacto e relevância dentro do universo em que está inserida.
Essa sensação se intensifica quando se observa o potencial pouco explorado de elementos como o Makai, que acaba sendo apresentado de forma superficial, muitas vezes limitado a exposições rápidas ou flashbacks que não se desenvolvem plenamente.
POTENCIAL QUE EXISTIA — MAS FICOU NA SUPERFÍCIE
Apesar das críticas, é importante reconhecer que Dragon Ball Daima apresentou ideias interessantes que, no papel, tinham potencial para expandir de forma relevante o universo da franquia.
A obra traz explicações sobre a origem de Majin Boo, apresenta a estrutura dos três reinos dentro do Makai, introduz os Glind como base para a existência dos Kaioshins e ainda oferece vislumbres do passado de personagens como Dabura. Além disso, há tentativas de aprofundar elementos antigos, como a origem dos Namekuseijins, algo que sempre despertou curiosidade entre os fãs.
O problema não está nas ideias em si, mas na forma como elas são utilizadas.
Grande parte dessas informações surge de maneira apressada, muitas vezes por meio de exposições diretas ou flashbacks rápidos, sem o devido desenvolvimento dentro da narrativa principal. São conceitos que aparecem, mas não são explorados com o tempo e a profundidade que exigem.
Essa escolha se torna ainda mais questionável quando contrastada com o ritmo inicial da obra, que dedica episódios inteiros a situações pouco relevantes, como sequências prolongadas envolvendo roubos de naves e fugas sem impacto real na construção do enredo.
O resultado é uma sensação constante de desequilíbrio. Enquanto elementos que poderiam enriquecer a história são tratados de forma superficial, o tempo de tela é consumido por eventos que pouco acrescentam ao desenvolvimento do universo ou dos personagens.
Assim, Dragon Ball Daima acaba revelando um problema recorrente: não a falta de boas ideias, mas a incapacidade de transformá-las em uma narrativa que realmente aproveite o seu próprio potencial.
O VERDADEIRO CONTRASTE
Ao comparar as duas obras, o contraste se torna evidente. Dragon Ball GT se destaca por tentar desenvolver ideias mais ambiciosas, ainda que nem sempre consiga executá-las com consistência. Já Dragon Ball Daima opta por um caminho mais seguro, mas que, justamente por isso, raramente resulta em momentos memoráveis.
Essa diferença de abordagem acaba influenciando diretamente na forma como cada uma é percebida dentro da franquia.
CONCLUSÃO
No fim, Dragon Ball GT continua sendo uma obra com problemas evidentes, especialmente na forma como executa muitas de suas ideias. Ao mesmo tempo, Dragon Ball Daima também apresenta limitações claras, principalmente quando se observa o potencial que tinha em mãos.
Mas talvez o ponto mais importante não seja definir qual é melhor ou pior, e sim entender que cada fase da franquia reflete uma proposta diferente. GT buscou expandir o que veio de Dragon Ball Z, arriscando mais, enquanto Daima tenta revisitar elementos mais antigos da série, apostando em uma abordagem mais leve.
O que muda, no olhar atual, é a forma como esses caminhos impactam o público. Para alguns, o peso dramático e as ideias de GT continuam sendo mais marcantes. Para outros, a leveza de Daima pode funcionar de maneira diferente, ainda que não atinja todos os aspectos que poderia.
No fim das contas, Dragon Ball continua sendo uma franquia que se reinventa — às vezes acertando mais, outras vezes menos — mas sempre gerando discussão. E talvez seja justamente isso que mantém a obra tão viva até hoje.
👉 Quer mais análises como essa? Acompanhe o KaBanGo Animes e fique por dentro de tudo que importa no mundo dos animes!






0 Comentários