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Por que Saint Seiya provavelmente nunca terá um remake pela Toei

Saint Seiya

Fãs pedem há anos um remake de Saint Seiya, seja para adaptar o mangá com maior fidelidade, seja para modernizar a animação clássica. À primeira vista, parece um desejo natural. Afinal, outras grandes franquias já passaram por esse processo. Hunter x Hunter recebeu um novo anime em 2011. Fullmetal Alchemist ganhou Brotherhood. Até obras muito mais antigas foram revisitadas com sucesso. Então por que Saint Seiya parece sempre ficar de fora dessa conversa?

Saint Seiya

Talvez porque exista um problema muito particular com essa franquia: o anime clássico não foi apenas uma adaptação do mangá. Em muitos aspectos, ele se tornou maior do que o próprio material original.

Essa é uma afirmação que costuma gerar resistência, mas é difícil ignorar os fatos. Embora o mangá de Masami Kurumada, iniciado em 1986, tenha vendido mais de 50 milhões de cópias ao redor do mundo, foi o anime produzido pela Toei Animation que transformou Saint Seiya em um fenômeno internacional, exibido em dezenas de países e especialmente marcante em mercados como Japão, França, Espanha e América Latina. Para a enorme maioria do público, Saint Seiya não é o mangá. É o anime.

E isso aconteceu porque a adaptação não se limitou a reproduzir o material original. Ela tomou decisões que elevaram a obra.

O traço de Shingo Araki e Michi Himeno se tornou, para muitos fãs, a identidade visual definitiva da franquia. As armaduras foram redesenhadas e se tornaram muito mais icônicas do que suas versões iniciais do mangá. A trilha sonora de Seiji Yokoyama ajudou a dar ao anime uma grandiosidade épica difícil de imaginar sem ela. Até mesmo elementos frequentemente criticados, como fillers e mudanças narrativas, em vários casos contribuíram para enriquecer a adaptação, dando mais tempo para desenvolver os Cavaleiros de Bronze antes dos confrontos maiores.

Talvez o maior exemplo disso seja o arco de Asgard. Inexistente no mangá, ele foi criado para o anime e, ainda assim, permanece até hoje como um dos segmentos mais queridos da série. Isso diz muito sobre o que o anime conseguiu fazer.

É exatamente aí que nasce o problema de um remake.

Se um novo anime decidir seguir fielmente o mangá, inevitavelmente precisará abandonar ou alterar elementos que ajudaram a tornar a adaptação clássica tão poderosa. Isso inclui não apenas conteúdos exclusivos do anime, mas também decisões visuais e dramáticas que, para muitos fãs, superam o próprio original.

Mas se um remake optar por manter o estilo de Shingo Araki, preservar o espírito do anime clássico e apenas reanimar tudo em alta definição, então já não seria realmente um remake fiel ao mangá. Seria, essencialmente, refazer o que já existe.

Em outras palavras, qualquer caminho gera um paradoxo. Se seguir fielmente o mangá, corre o risco de parecer inferior ao clássico; se reproduzir o estilo do anime original, será acusado de não ser um remake verdadeiro; e, se tentar reinventar a obra, poderá repetir os fracassos recentes.

E esses fracassos importam.

Nos últimos anos, praticamente toda tentativa de relançar ou reinventar Saint Seiya encontrou resistência ou resultados decepcionantes. Legend of Sanctuary, lançado em 2014, teve recepção dividida. O remake em CGI da Netflix gerou enorme rejeição, especialmente por mudanças criativas controversas. O live-action de 2023 teve desempenho muito abaixo do esperado, arrecadando algo em torno de 7 milhões de dólares mundialmente diante de um orçamento estimado em cerca de 60 milhões. Isso não é apenas uma decepção criativa. É um alerta comercial.

Saint Seiya

Saint Seiya

Mas existe um detalhe revelador nesse histórico. Os projetos que apresentaram melhores resultados foram justamente aqueles que não tentaram substituir o clássico, mas continuar dialogando com ele.

Saint Seiya

Saint Seiya: Soul of Gold, por exemplo, funcionou precisamente porque bebia diretamente da fonte do anime original. Não era uma reinvenção radical, nem um rompimento com a identidade clássica da franquia. Era, em essência, uma expansão daquele universo, centrada justamente em um dos elementos mais populares da obra: os Gold Saints.

Saint Seiya Ômega

Saint Seiya Soul of Gold

O mesmo vale para Saint Seiya Ômega. Embora controverso e frequentemente debatido entre fãs, o fato de ter alcançado incríveis 97 episódios, exibidos entre 2012 e 2014, mostra que havia sustentação para o projeto. E isso não é irrelevante. Para uma produção que muitos tratam apenas como fracasso, sua longevidade conta outra história.

O padrão é claro: quando Saint Seiya tenta romper com sua identidade, costuma encontrar rejeição. Quando continua ligada ao legado do clássico, tende a funcionar melhor.

Isso reforça a percepção de que a própria força do anime original é, ao mesmo tempo, o maior ativo da franquia e o maior obstáculo para um remake.

E remakes custam caro.

Saint Seiya

Produzir uma nova adaptação de Saint Seiya no nível de qualidade que os fãs exigiriam demandaria um investimento alto, com retorno profundamente incerto. Do ponto de vista empresarial, a Toei não parece ter incentivo real para assumir esse risco, especialmente quando a franquia continua gerando valor através da nostalgia, licenciamentos, figures, Cloth Myth e relançamentos.

Há ainda outro elemento frequentemente citado pelos próprios fãs que, curiosamente, reforça a dificuldade de existir um remake. Muitos enaltecem as animações produzidas para as máquinas pachinko no Japão, justamente porque apresentam cenas clássicas refeitas com altíssimo nível técnico, com movimentação mais sofisticada, efeitos modernos e um acabamento visual impressionante. À primeira vista, isso parece um argumento a favor de um remake. Mas, olhando mais de perto, talvez seja exatamente o contrário.

O motivo pelo qual essas animações são tão admiradas não está em qualquer reinvenção de Saint Seiya, mas precisamente no fato de elas preservarem quase integralmente aquilo que tornou o anime clássico marcante. Elas mantêm o design de Shingo Araki, reproduzem a estética tradicional das armaduras, preservam a identidade visual da série e, essencialmente, apenas reapresentam o mesmo Saint Seiya com tecnologia moderna. Não propõem uma nova interpretação da obra, não tentam reaproximar a franquia do mangá e tampouco corrigem escolhas da adaptação original. Seu apelo está justamente em reafirmar o clássico.

E isso é extremamente revelador. Quando muitos fãs apontam essas animações como prova de que um remake deveria existir, o que estão pedindo, na prática, não é um remake no sentido tradicional, mas uma reprodução do anime antigo com mais orçamento e animação atualizada. Isso não resolve o dilema central que qualquer nova adaptação enfrentaria. Apenas o confirma.

Se um novo projeto seguir exatamente esse caminho, estará essencialmente refazendo o clássico, correndo o risco de ser visto como redundante. Se tentar se afastar desse modelo e propor mudanças mais profundas, poderá enfrentar a mesma rejeição que tantas releituras modernas já encontraram. Até mesmo o exemplo frequentemente usado para defender a viabilidade de um remake acaba evidenciando o problema: aquilo que mais encanta nessas animações não é uma nova visão de Saint Seiya, mas justamente o fato de elas manterem intacto o que o anime original construiu.

Talvez isso diga mais sobre a impossibilidade de um remake do que parece à primeira vista.

Diferente de outras obras que ganharam remakes para corrigir problemas das primeiras adaptações, Saint Seiya enfrenta justamente o oposto. Seu maior obstáculo é que a primeira adaptação deu certo demais.

No caso de Fullmetal Alchemist, havia um anime que se afastou do mangá e abria espaço para uma versão mais definitiva. No caso de Hunter x Hunter, havia limitações técnicas e interrupções a serem superadas. Em Saint Seiya, porém, o anime clássico já se consolidou, para muitos, como a versão definitiva.

O desafio, portanto, não é melhorar uma adaptação falha. É tentar refazer uma obra que, para gerações de fãs, já parece insubstituível.

Talvez por isso todas as tentativas modernas tenham seguido outros caminhos — filmes, CGI, live-action e releituras — e nunca um remake tradicional do clássico.

Talvez a verdade seja mais simples: Saint Seiya nunca teve remake justamente porque a primeira adaptação deu certo demais. A Toei criou uma obra tão marcante, tão definitiva e tão difícil de superar que qualquer nova versão nasce sob o risco de parecer menor.

E talvez seja por isso que um remake seja justamente algo que nunca veremos.

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