Kill Blue começa com uma premissa curiosa e, ao mesmo tempo, bastante incomum. Ogami é um assassino quarentão extremamente habilidoso, mas carrega uma fraqueza muito específica: ele simplesmente não sabe lidar com crianças. Ele as assusta, evita qualquer contato e demonstra um completo desinteresse em estar perto delas.
Essa característica, que inicialmente parece apenas um detalhe de personalidade, se torna central quando tudo muda de forma inesperada. Durante uma missão em que elimina criminosos ligados a uma empresa farmacêutica, Ogami é picado por uma vespa geneticamente modificada. O resultado foge completamente do controle: seu corpo retorna ao de uma criança.

A partir daí, a história assume sua principal proposta. Preso ao corpo de um garoto de aproximadamente 12 ou 13 anos, esse homem experiente, já adulto e com uma filha, precisa se adaptar a uma realidade completamente nova. E não por escolha. Para continuar sua investigação, ele é obrigado a voltar à escola, com um objetivo claro: se aproximar da filha do dono da empresa envolvida e descobrir mais sobre o que está por trás daquela organização.
Dentro dessa premissa, Kill Blue segue um caminho relativamente tradicional em termos de construção. Tecnicamente, o anime não se destaca de forma significativa. A animação é funcional, mas longe de impressionar, a trilha sonora cumpre seu papel sem deixar marcas mais fortes, e o design dos personagens segue um padrão bastante comum dentro do gênero.
Ainda assim, esses elementos não comprometem a experiência de forma direta, porque o verdadeiro foco da obra está em Ogami. É a forma como ele reage a essa nova vida que sustenta o interesse da narrativa.

Existe um contraste interessante nesse ponto. Ao mesmo tempo em que mantém sua mentalidade de assassino experiente, Ogami começa a descobrir aspectos da vida escolar que nunca pôde vivenciar. Pela primeira vez, estudar, conviver e experimentar a rotina de um jovem deixam de ser obrigações e passam a carregar um certo senso de novidade.
E é justamente nos pequenos detalhes que o anime encontra seu charme. Um exemplo disso é a dificuldade de Ogami em lidar com algo simples para qualquer estudante atual: o grupo de mensagens da sala. Para alguém completamente deslocado daquele universo, interações digitais básicas se tornam confusas, desconfortáveis e até levemente caóticas, criando momentos genuinamente divertidos que reforçam o contraste entre sua experiência de vida e essa nova realidade.
Esse elemento traz leveza à história e cria um equilíbrio com o absurdo da situação.
É nesse contexto que surge Noren Mitsuoka, a garota de quem ele precisa se aproximar. Em um primeiro momento, ela se apresenta como alguém distante, com uma postura esnobe que naturalmente dificulta qualquer tentativa de aproximação. No entanto, essa dinâmica começa a se transformar quando Ogami descobre que ela trabalha no restaurante de lámen de seu tio, abrindo espaço para uma interação mais orgânica.
A relação entre os dois começa, então, a ganhar camadas.
Esse desenvolvimento encontra um ponto de virada em uma sequência importante, quando Ogami a salva de um sequestro. É justamente nesse momento que o anime apresenta uma melhora perceptível em sua execução. A animação, que até então se mantinha apenas funcional, ganha mais cuidado e intensidade nas cenas de ação. A produção claramente concentra seus esforços nesses momentos, elevando o impacto da sequência e criando um contraste positivo dentro do episódio.
Kill Blue apresenta uma ideia simples, mas eficiente, e consegue encontrar seu principal ponto de força na forma como trabalha seu protagonista. Mesmo sem grandes destaques técnicos neste início, a obra compensa com um personagem central carismático e com uma proposta que mistura ação e comédia de maneira leve.
Os dois primeiros episódios deixam uma impressão positiva, ainda que contida. Existe potencial, principalmente se o anime conseguir equilibrar melhor seus momentos de ação com o desenvolvimento das relações e explorar com mais consistência os conflitos dessa dupla identidade de Ogami.
No fim, Kill Blue não começa como um destaque absoluto da temporada, mas também está longe de ser descartável. É o tipo de obra que cresce aos poucos — e que pode surpreender, dependendo de como decidir evoluir a partir daqui.
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